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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Caboclo Guará

Depois de riscado o ponto, pergunto ao Caboclo Guará, se pode me contar alguma coisa sobre a vida dele, então ele me pede que vá chamar a sua antiga cambone · Uca · para que ela me conte o que já sabe. Uca me relata uma parte da história da Entidade, que já havia sido contada por ele. Depois, quando estamos apenas nós dois, Sr. Guará conta que era o filho mais velho de um cacique chamado Tucuaré, e que, portanto, seria o sucessor natural de seu pai no comando da aldeia. Quando o velho cacique adoece, tudo é feito para que sua saúde seja resta bel ecida, o Pajé faz as pajelanças que conhece, mas o cacique não melhora e morre. Guará prepara-se, então, para assumir a chefia da aldeia, quando seus irmãos questionam esse direito natural, não permitindo que Guará seja cacique, e uma disputa pelo poder se esta bel ece entre eles.

Guará não aceita ter o seu direito natural à chefia da aldeia, questionado pelos irmãos e resolve não entrar em conflito, não guerrear com os irmãos, não tomar o poder à força. Ele me diz que aquele era o seu direito, e que direito não se disputa, que ele não aceita o fato de ter seu direito contestado. Guará, então, retira-se para dentro da mata, magoado com os irmãos. Muitas luas se passam até que, um dia Guará resolve voltar para a aldeia, e o que encontra é um cenário de destruição. Sua aldeia já não existe mais, uma tribo inimiga a invadiu, matando todos os homens e capturando as mulheres e crianças.

Guará é, então, tomado por sentimentos de tristeza e vingança. Sente uma grande dor de ver seu povo dizimado, de não ter estado lá para defendê-los, de ter suas mulheres, inclusive a que mais amava, e filhos, levados por outros guerreiros. A dúvida se esta bel ece em seu espírito, e ele experimenta a sensação de não ter tomado a decisão adequada ao se exilar na mata. Deveria ter ficado. Novamente a mata torna-se seu refúgio. É lá que ele passa muitas luas pensando, remoendo a culpa, e planejando qual seria a melhor maneira de ter seu povo de volta. Pensa nos irmãos, que já estão mortos, na mulher que amava, nos filhos que gerou. O desejo de vingança torna-se, pouco a pouco, muito forte e o guerreiro passa a vigiar a tribo invasora, planejando o ataque.

Um animal de grande porte é morto. Com o osso do fêmur que é pacientemente afiado numa pedra à beira rio, Guará faz uma arma com a qual vai vingar a morte dos homens e resgatar mulheres e curumins.
Noite após noite, Guará, silenciosamente, entra na aldeia e mata, cortando suas cabeças, os homens. O guerreiro não tem pressa, a cada noite executa uma parte de sua vingança, retornando sempre à mata, que agora é seu lar. Finalmente, todos os homens estão mortos.
Guará lavou em sangue a honra e a dignidade da sua aldeia e de seus guerreiros mortos.
Retorna para, então, levar de volta às suas terras, mulheres e curumins, no entanto muito tempo havia se passado e todas elas haviam se unido a outros homens e com eles procriado.

Recusaram-se a voltar, sua vida agora era ali. Guará foi, novamente, tomado por um sentimento de abandono.
Tudo o que fez não surtiu o resultado esperado e ele, no desejo de vingar seu povo havia manchado suas mãos e sua alma, com o sangue de seus próprios filhos.
A mata novamente o acolheu. O exílio era, agora, não questão de tempo para pensar, mas sim definitivo.
Sem pátria, sem povo, sem a mulher amada, os filhos mortos por suas próprias mãos, tornam o guerreiro um homem atormentado pela culpa. A alma do guerreiro está irremediavelmente manchada de sangue e dor. Vagar pela mata, caçar para comer e purgar a sua culpa, ocupam agora, os dias e horas de Guará.
A intimidade com a floresta faz dele um grande conhecedor de plantas e ervas, muitas delas usadas para curar.

Os índios da outras tribos, não acostumados a ver guerreiros sem aldeia e sem povo e o fato de Guará jamais se deixar ver ou comunicar-se com outras pessoas, fazem dele uma lenda.
É agora tratado como ·Espírito da Floresta·, vagando entre as aldeias, sem jamais aproximar-se delas. Guará cura, com seu conhecimento e suas ervas, os índios que são deixados na mata. Quando retornam, curados, todos nas aldeias dizem que os doentes são curados pelo ·Espírito da Floresta·
Mas isso não alivia a dor do guerreiro nascido para ser cacique. Os anos de solidão só faz aumentar dentro dele a mágoa e a culpa, não consegue perdoar seus irmãos nem tão pouco perdoar a si próprio. A vida em reclusão faz dele um homem sem palavras, já não fala mais.
As vidas que salva não consolam, nem repõe a vida dos filhos, que tirou. Não suporta, nem mesmo, ver sua imagem refletida na água dos rios, e para que isso não ocorra, cobre seu corpo de lama, na tentativa de esconder-se de si mesmo.

Dias, noites, anos se passam e o guerreiro envelhece. Seu corpo maltratado pelo abandono já não consegue mais caçar para seu sustento. Deixa-se morrer, só, como viveu.
Sua carne, ainda em vida é devorada pelos animais, e Guará torna-se, enfim, verdadeiramente, ·Espírito da Floresta.
Outra missão inicia-se. O espírito guerreiro, de homem acostumado à natureza, deve agora, vir para salvar os que aqui estão.
Pergunto a ele se ainda sente a mesma dor. Responde que sim. Quando um filho nos é tirado por outros, a dor é grande, mas passa. Quando a vida de um filho é tirada por seu próprio pai, isso não passa nunca.· ·Cortei minha própria carne, fiz correr meu sangue, matei meus filhos e meu coração está pesado, cheio de angústia e dor·.

Pergunto a ele do que se arrepende. Diz : ·Não deveria ter abandonado meu povo, deveria ter lutado, ser cacique, achei que estava agindo certo por não querer lutar por um direito que era meu, estava errado, abandonei meu povo sem chefia, fui culpado pelo que aconteceu com eles. Meu papel de herdeiro da liderança de meu pai era ocupar a posição que era minha, não me importar com as disputas·. ·Em meu coração há, ainda muito rancor e mágoa·
Quero saber se seu pai foi um cacique bom e justo. Guará diz: · Justo, bom, cacique era bom, mas quando ficou doente, apesar dos esforços do Pajé, a doença o levou·.

Seu pai aprovaria sua atitude? ·Não sei.

Outra coisa poderia ser feita? ·Guará não pensou em outra coisa, irmãos de Guará não aceitaram Guará como cacique·.
Pergunto se, um dia, essa dor vai passar. ·Guará tem que aprender a sorrir, não pode ficar com e coração apertado, o dia que Guará sorrir, ao vem mais aqui·.
Digo a ele que, no dia que isso acontecer ficarei triste pela sua ausência, sentirei saudade, mas estarei feliz por ele. Quero saber se é possível que um dia ele sorria para mim. Ele diz que isso pode demorar muito. Digo que não tenho pressa, tenho tempo.
Ele me pergunta o que é o tempo para mim, quanto tempo eu tenho para esperar.

Não sei responder, então o Caboclo quer saber a quanto tempo o homem branco está nessa terra (Brasil)? Respondo que há mais de 500 anos. O Caboclo então me diz:·
Esse é o tempo de Guará, Guará viu o homem branco chegar aqui nessa terra, você tem esse tempo?
Sorrio e digo que pode ser que nós tenhamos uma longa jornada juntos, se não for nessa vida, talvez em outra eu o veja sorrir. Sinto necessidade de dizer do amor que sinto por ele. O caboclo faz um gesto de que entende o que digo, mas fica em silêncio, pensando.

Observando o movimento em volta, ele diz: ·Guará não gosta disso·. E faz um gesto apontando as pessoas, e entendo que ele não se sente bem em meio a muita gente.Digo que compreendo o que sente, pois viveu muito tempo em isolamento.
Ele então me explica que vem nessa Casa de duas formas. Às vezes jovem, e então gosta de conversar, de contar sua história, falar de seu povo. Às vezes velho, então não fala, não gosta; não porque não queira, mas quando envelheceu já não tinha voz, já não falava mais, perdeu sua linguagem.
Agora posso entender porque, às vezes, ao camboneá-lo é tão difícil ·arrancar· dele poucas palavras, e as que diz são quase ininteligíveis. Nestas horas, creio que o meu papel de cambone é ainda mais fundamental, pois tenho que estar em perfeita sintonia com a Entidade para ·sentir· o que ela quer dizer, interpretar e passar isso, com fidelidade, para o consulente. Muitas vezes não entendia, achava que estava bravo. Hoje entendo e respeito sua dor e seu silêncio e sei que ele ·depende· de mim, da minha dedicação e atenção, para poder cumprir sua missão nessa Casa.

Quando se levanta, o Caboclo Guará pega o Pau de Chuva e pede que eu ouça o barulho que faz. Pergunta-me o que lembra, e eu digo que parece um guizo de cobra. Então ele explica que, por muito tempo, na mata, tinha a companhia de uma cobra e esse barulho é como se fosse o barulho que ela fazia. Pede que eu não permita que as pessoas mexam no Pau de Chuva, fazendo o seu barulho, a cobra não gosta.

Sr. Guará vai embora, levando a sua dor e deixando para mim uma lição de vida.`por quantas vezes deixamos de lutar pelo que queremos, por achar que é nosso direito, que deveria nos vir mansamente, sem luta. Devemos lutar sempre, até pelas coisas que julgamos já nos pertencerem.
Deixa, também, um grande exemplo de amor à família e que os laços de carne e sangue são indissolúveis. Ensinou-me, nessa noite, a respeitar sempre a dor e o silêncio alheio. Fui simplista demais ao tomar seu silêncio como se fora brabeza. Não podia fazer idéia da dimensão do que lhe afligia. Não devo fazer isso com mais ninguém, nem permitir que façam comigo. As pessoas são muito mais profundas do que, por comodidade, costumamos supor.

O silêncio pode encobrir grande dor. O afastamento, grande dúvida. A falta de riso fácil, que teimamos em classificar como antipatia, pode camuflar decisão de recolhimento.
Por que somos, ou queremos ser, tão superficiais? Dar logo um nome, um rótulo para tudo e todos, se nós mesmos não gostamos, nem queremos ser rotulados?
A mesma delicadeza que desejo receber, devo dar aos outros. A atenção que necessito, preciso ter para com os que me acompanham.|

Foi essa a lição que levo comigo dessa noite. O desprendimento de Sr. Guará, ao me contar sua vida, expondo sua dor, não deve servir apenas para saciar minha curiosidade, ou para sabermos a sua história; muitas vezes a dor vivida por outros nos serve como alerta. Se conseguirmos, ou tentarmos, não cometer os mesmos erros, sua dor não terá sido inútil.

Saio daqui hoje com um grande sentimento de amor por essa Entidade que, mesmo sofrendo, consegue reunir forças para nos ajudar.

Apaixonei-me novamente!

Sheilla Riekes Prochmann
Cambone

Caboclo Águia Branca

Grande espírito Manitú, ajude-me a nunca criticar meu vizinho da oca, sem antes ter andado pelo menos duas léguas com seus mocassins.
Esta foi a primeira mensagem deixada por este maravilhoso Águia Branca, caboclo que eu sirvo.
De acordo com suas palavras ele é o chefe da falange dos índios Peles-vermelhas.
Costuma dizer que é do tamanho de uma montanha e é grande para que os seres possam aproveitar suas sombras, e ali descansarem de suas buscas e refletirem para a continuidade.
Gosta de fazer trabalhos na linha de cura, receita muitas ervas, frutas e trabalha com um ponteiro feito de osso o qual passa nas pessoas como se fosse uma espécie de bisturi.
Trabalha também nos sete corpos dos consulentes e afirma que às vezes alguns destes corpos apresentam buracos por onde energias densas canalizam e penetram, deixando-os energeticamente fracos.
Pertence ou pertenceu à fraternidade branca, e suas atitudes sempre são solenes, digna, pura e serena.
Só fala com o propósito definido de favorecer, aconselhar e remediar. Tem fina presença e perfeita obediência às leis da saúde e jamais se aborrece por algo. Habita um certo vale ou desfiladeiro, mais propriamente como se fosse uma desembocadura no astral, onde existem pequenas ocas para se fazer oferendas de flores e frutos, queimar cânfora e cantar mântras.
Ocupa o mental dos médiuns (cavalos) para ajudar pessoas ou emitir uma onda especial de bênçãos. Atua no mundo todo por meio de enorme corrente de energia com o qual influem nos corpos causais de milhões de seres. Está sempre a serviço dos planos de Deus (Manitú) . Explica que para chegar a Manitú existem três entradas;

1 - Saber
2 - Trabalhar
3 - Orar

e que aqueles que esperam no lado externo podem entrar por qualquer delas.

Diz que há montanhas muito altas para se alcançar. Pensamentos e sentimentos indesejáveis devem ser eliminados. Afirma que quando chamados, os seres humanos devem se movimentar rapidamente.
Fala pausadamente, ás vezes de forma errada. É um caboclo de Oxossi e, com pausa, diz que palavras ociosas formam uma atmosfera que repele boas influências. Fala que o humano com as palavras constrói o seu ambiente, e neste ambiente é que vive.
Vontade e pensamento acompanham as palavras. Também diz que todos devemos carregar um colar, pois o mesmo fortemente magnetizado e com um determinado propósito (lei) será de inestimável ajuda, e a tarefa do caminho é árdua e qualquer ajuda agradaria. O objetivo dos espíritos é favorecer a evolução, gosta da cura do corpo e pede às pessoas para que não esqueçam da vigilância da conduta.
Gosta de mântras, e diz que equivale à nossa palavra magia, e que são resultados do ocultismo prático. Diz que som é ondulação no ar, e isto põe tudo em movimento.
Seu ponto riscado contém uma estrela de cinco pontas, que de acordo com suas explicações sintetiza em si muitos mistérios sagrados, e irradia também o inconsciente coletivo, e foi absorvida pela umbanda a serviço dos Orixás, tornando-se um símbolo universal.
As flechas indicando direcionamento e sentido, o círculo que diz simbolizar terra , água, fogo e ar em um só, significando o alto, o embaixo, a direita e a esquerda. Diz que qualquer magia tem que possuir sintonia em três níveis;

1 - Orixá
2 - Guia
3 - Médium

Só assim, com elos da corrente, a segurança é total, e chama isto de pára-raios cósmico. Fala que é um executor dos pensamentos do senhor Manitú. Se utiliza da palavra, e pela palavra plasma o pensamento na matéria, e diz que é a força da palavra dentro da lei.
Cito algumas ervas e frutas indicadas bem como para que servem, mas com um pitoresco caso a contar: Quando o senhor Águia Branca se utilizou deste cavalo, a primeira erva que o mesmo indicou a um consulente foi chá de arruda. Ao final das consultas, estava bastante preocupado, pois se o cheiro de arruda é terrível, imaginem o gosto. Fui conversar com meu pai de santo, e simplesmente ouvi o seguinte: Se fosse você Fulano que indicasse o chá, eu mandaria não tomar, mas como foi um espírito nada temos a temer. Dito e feito, a posterior soube que o medicamento evita sangramentos tendo o consulente confirmado que tudo estava bem.

Ervas e Frutas.

Árvore Casta: desordens menstruais, cisto, dores no seio, tensão menstrual.

Chapéu de Couro: ácido úrico, gota.
Cava Cava: insônia.
Garra do Diabo: reumatismo.
Castanha da Índia: pernas cansadas, varizes.
Unha de Gato: sinusite, amídalas.
Copaíba: bronquite
Alho: colesterol.
Morango: tifo, ácido úrico, infecções no fígado.
Banana: prisão de ventre.
Maçã: para o cérebro.
Mamão: asma, diabete.
Semente de melancia torrada: aplicada em feridas acalma a dor.
Pêra: tireóide.
Alcachofra: anemia.
Lentilha: dores de cabeça.
Losna: catarros, cólicas, bafo na boca.
Cebola: fígado, intestino, vias respiratórias.
Espinafre: fadiga, pressão alta.
Tomate: ossos, dentes, intestino.

Afora algumas simpatias para diabetes, parar de beber, gripe, inveja, bronquite, ervas dentro do travesseiro para tirar dor, enfim citar mais seria muito longo.

Como curiosidade, o significado do nome Águia Branca:
Águia: pessoa dotada de grande talento.
Branca: clã, grilheta.
Clã: chefe supremo.
Grilheta: anel de ferro na extremidade de uma corrente.

Diz também que trabalha na umbanda porque é um ritual de liberdade, protesto e reação à opressão.

Eis Senhor Águia Branca, pai e amigo. Muita luz.